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Em espera

 

Calada

Como a concha

Sobre a mesa

Do trabalho,

 

Não atendo

Se me tocas

Nas ausências.

 

Planejo,

Friamente,

O grande incêndio,

O desjejum.

 

Aperto,

Entre os dedos,

Nossa dízima,

Teus botões.

 

Um arsenal

De olhos discretos

Me atravessa

Pelas ruas.

 

A mulher

Espera o filho

Como a água

A ebulição.

 

O amor

Move as meninas

Como as asas

O navio.

 

A cada dia,

Outro domingo.

Um deserto

De pessoas

Sob a lua

Matinal.

 

Usufruo,

Como esteta,

A companhia

Do teu não.

 

Meu casaco

Brim carmim

No granito

De uma praça

Enquanto choro

E um velho passa

Conformado

No final.

 

O coração

De uma Poeta

É beira,

Nunca meio;

 

Bola de papel

Dourada

 

Livro antigo

Sem esteio

 

Uma bússola

Que ancora

No passeio

 

O sangue doce

O mapa aberto

Que exilou-se

 

Uma hélice

De estrelas

Barra de sabão

Azul.

 

Se me mostro agora

Oculta,

Entre direções

Sem Sul,

À revelia

De quem volta

E esbarra

Nas esperas,

É que me exultar

Não pude.

 

Sigo fraca, mas serena,

Estampada no que escondo

Com o ar de quem aguarda,

Paciente,

A inquietude.

 

(este texto foi publicado em 2018 na Revista Odara e no livro de artista coletivo “O que Esperam as Mulheres”, organizado pelo artista visual Carlos Zurc Cruz em 2016).

rapsódia

 

não, eu não fui pra aula de música hoje. um camarada do museu passou aqui de surpresa, fomos almoçar na pensão da esquina e tomar umas cervejas, deu um barato, depois sonolência, depois os ânimos ruíram. ele é esguio e já passou dos sessenta. não sei se são seus grandes olhos de criança ou aquele chapéu verde que eu queria pendurar no meu armário ou suas mãos firmes e alongadas que às vezes imagino nos meus peitos; sei que ele é lindo e sempre vai embora cedo, como toda beleza. cochilei ouvindo ‘sweet nuthin’, mas antes rezei pra não acordar. depois falei um pouco com lúcio, ele me entende muito mais do que o espelho. às vezes me escreve coisas calorosas e insiste em dizer que é depressão. lúcio acha que a morte é fria. digo a ele que qualquer contato visceral é CALOR; as pessoas associam o “quente” ao verão, festas, sorrisos, mas não sei, o verão é uma casca frágil, a temperatura se mede pela amplidão do contato, não pelo fahrenheit. uma frieza intensa é quente, por exemplo. o morno é a coisa mais gelada que existe. um iceberg no ártico é puro incêndio. lúcio se desculpa por não ter ligado no meu aniversário, estava deprimido. digo a ele que não me importo, joana também se desculpou, ela tem enxaqueca aos domingos. o aniversário me faz lembrar que eu sempre envelheço muito mais rápido que a passagem do tempo. meu desespero estava tamanho que anteontem entrei em um SHOPPING CENTER, pensei em comprar uma arma, um doce, um livro, mas me sentei em uma poltrona e comecei a chorar. descobri que gosto de ver as pessoas caminhando, não preciso falar com elas, mas me comunico ao comover-me com seus passos. é diferente ser solitário em casa e ser solitário na rua às vezes, olhar ao redor faz toda diferença, mesmo para os indiferentes. de um ano pra cá, passei grande parte do tempo no meu quarto e definhei. daí voltei a estudar música e isso me faz sair ao menos duas vezes por semana, além do quê trabalho sábados e domingos no teatro, lá tem gente à beça e todos se movimentam de modo singular; eu fico parada rindo escondida enquanto a gravidade brinca, incontrolável, com o sonho de voar. às vezes penso que não é tão ruim assim fazer o que todas as pessoas fazem. é possível fazer coisas comuns sendo incomum; inclusive é um favor para o mundo, porque quando os incomuns fazem coisas comuns, elas começam a se modificar foi o que falei para lúcio. falaria o mesmo para joana. somos três almas sensíveis demais pra carregar as demandas do estômago. nossa amizade, aliás, nasceu assim, na penumbra. penso em alguma alegria que tenha existido. aquele toque inesgotável. uma coreografia ébria. o encontro sem frações – todo reconhecimento também faz aniversário. “only last summer”. ou last fall (sou britânica, beibe). semana passada achei que fosse enlouquecer, juro que ainda não tinha me flagrado assim, tão down. não é que as coisas “deixaram de fazer sentido”, não, isso é fácil superar; pior é quando as coisas fazem sentido, mas o sentido tanto faz. daí falei com joana, chorei muito no ônibus lotado e um rapaz me cedeu seu lugar, quero dizer, chorar em pé é muito pior, porque PESA – sabe quando alguém carrega sua mochila? então, não se pode carregar as lágrimas de ninguém, mas eu fiquei encostada no banco com ares de gratidão e sede. depois disso melhorei, TURN POINT, o inconsciente emerge como um salva-vidas. minha casa é uma bagunça, chuveiro queimado há mais de um ano, as frutas mofam na geladeira, não consigo limpar o chão, não consigo fazer café sem dor, perdi o apetite, me obrigo a almoçar fora porque o estômago (já falei dele) é cheio de melindres, não suporta ficar sem atenção, mas nem sempre o dinheiro ajuda. depois do turn point, consegui cantar um pouco, mas meus pulmões ainda doem, me desespero achando que tenho câncer terminal e vou morrer no chão da sala; dias depois chega o vizinho, a quem nunca dei bom dia, e me reconhece pelo cheiro. ‘she ain’t got nothing at all’. não consigo mais me masturbar, nem pensando no chapéu verde do colega do museu. não tenho funcionado, sabe? lúcio me consola, mas ele também não funciona. rolaram umas conjunturas astrais fortes, somos ambos de áries, este é ano de MARTE, nosso planeta regente. mas joana é pisciana e também sofreu bastante esses dias, isto é: NÃO É. mas traz alívio. me faz crer que acabou o inferno astral. um inferno a menos. tenho pensado em me mandar uma outra vez. lugar menor que não precise varrer tanto. levar somente as muitas coisas que eu não tenho. louvar o túmulo daquela afinidade. comer nas horas certas, mas também na hora incerta – o perigo da tristeza é que ela aplaca a fome cedo. mas não quero nada médio. o cheque do trabalho finalmente compensou. logo compro cordas novas, uma gaita em dó de blues e começo a errar de novo. líquida. indolente. insuportável. e da capo.

(a primeira versão desse texto foi publicada no portal Cidadão Cultura, em 2016)

Porque a flor nasceu sem nome e reverencia o vento,

 

Já não importa o casco azul

Onde escondes

Teu diário

Quando o aceno

Improvisado

Rasga o centro –

Às quatro em ponto –

Enquanto o café

Borbulha afinado

Ouvindo Coltrane

Ao sol do encontro.

 

Não importa a tua língua,

Tampouco o idioma;

Não importa o mioma, o gozo, a bomba,

Nem o fumo que me traga

Ou a cicatriz que trago

Costurada com zelo

Sob luvas

De verão.

 

Vê: nasceu uma flor

Que reverencia

O vento

Enquanto deslizas

Tuas botas largas

Com os pés gelados

Por dentro.

 

Não importa a tua casa

Que ainda mora

No meu leito;

Não importa

Se eu me deito

Sem meu lenço

Nem cansaço

Sob a foz

Da chuva rasa

Que traduz

Outra estação

(O bom senso,

Muitas vezes,

É a censura

Da razão).

 

Não importa a pena,

O peso

Ou teu desprezo

Ao meu degredo

E importa, muito menos,

A foto do casal

Ameno

Que abraça

Um chope preto

E o sanduíche

De salmão

Sem suspeitar

Que existe

O medo.

 

Não importa que o amor

Seja apenas

A cena

A porta aberta

De um cinema

Ou dividir o maço,

O táxi

Ou consumir

Em Ipanema

Ou debater, na imagem,

O tema

Ou, ou.

 

Simplesmente

Não importa

Que alguém

Jamais se importe:

O poema

Está sedento

A flor nasceu

Deu vida

Ao vento –

Deu rumo

Ao Norte.

 

Blue Train sangra na vitrola

Paixões pesam

Sobre a gola

Como amigos

De infância.

 

Não importa

O quanto cesso

Tampouco

Se me movo:

Os amores

Antigos

Doem todos

No amor

Novo.

 

Não importa

A tirania

Da criança

Na fila

Ou meu dom

Para o silêncio

Essa estranha

Maldição

Que molesta

A ironia:

Gosto de tudo em ti,

Até do que eu

Não gostaria.

 

Não importa, sequer,

Se o que mais se quer da vida

É a morte.

Não importa a busca,

A sobra

Ou o porte

Do desarme

Nem importa

O teu ataque

(Fulminante!)

Ao coração;

Porque a flor nasceu sem nome

E reverencia

O vento,

Já não importa mais

O menos

Nem importa nada

O não.

 

(esse texto foi publicado pela primeira vez no portal Cidadão Cultura, em 2016)

 

 

camafeu

 

navegando naquele ombro salgado, ondas suadas no pescoço, dá vontade de morder. aí eu vi que ela tem um camafeu na pele. não, não é tatuagem. é uma joia talhada na carne, feita de carne, com cheiro de carne e rosto de anjo. lembrei de um anel que mamãe me deu quando eu ainda pintava as unhas. tinha uma moça em relevo. isso é um camafeu, acho. quando eu era criança e frequentava minhas primeiras aulas de geografia, chamava relevo de “revelo”. fiquei no mínimo um ano lendo assim, sem perceber o grande acerto — porque o relevo revela, não é? as fendas do espaço, o olhar indiferente da moça com seus cabelos presos, os amores escondidos atrás das pedras. paisagens essas que eu queria compartilhar com você, porque não posso suportar tanta beleza sozinha. não cabe nos meus olhos enormes. ontem, por exemplo, fomos para a cama: eu, meus dedos e o seu retrato, pregado nas pálpebras pelo lado de dentro. gozei três vezes. escorreu. lençóis trocados — já passou. na cama enorme, vários amantes, todos novos e encapados, com meu nome no rosto — nesse caso é tatuagem, não é camafeu — cortázar, emily dickinson (ah, sim, também transo mulheres), balzac, artaud, bandeira. durmo com todos, sou promíscua mesmo, mastigo um, beijo a orelha do outro, abraço emily, ah, emily! — e quando durmo, sonho com letras marulhando, sinto o cheiro dos barcos de papel ancorar no cais da sombra. e me deixo morrer como o sol virando as costas impiedosas para o leste. mas você sabe, eu sou muito bem resolvida com as minhas más resoluções, então acabo conseguindo repousar lá pelas tantas, quando já é hora de acordar de novo e a luz na infiltração me faz lembrar que não paguei o aluguel. acredita? outra vez! e ainda gastei tudo o que tinha com livros e camisinhas. mês passado até sobrou um dinheirinho, bebi menos, fumei pouco, trepei nadinha… as camisinhas todas lá, perto do lubrificante, o santo altar da puta ausência. mas a madrugada ainda se faz presente, sim, ela me ama e eu fiquei brincando de calcular o quanto de sol existia na lua aquele dia em que você ficou calado — um camafeu, um camafeu na pele. já imaginou? eu também me calaria. ah, se eu pudesse barquejar o seu tesão, me atiraria mar adentro, ia engolir a espuma toda, odor de peixe misturado com farol. tem corais nos seus cabelos, minha pele em água-viva. devo voltar a sylvia plath, acho — deito-me nua com sua morte quando soluço. o aluguel depois, quem sabe. estou aberta para tudo, menos para o fechamento. como o mar. como, do verbo comer mesmo. um dia ainda chego ao ártico — nadando? — preciso lamber gelo, ver o sol na horizontal. se eu fizer trinta e três anos,

(esse texto foi publicado na terceira edição da Revista Bacanal, Editora Nautilus, 2015)